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Existe um motivo pelo qual chamamos beat de "base"

Ronald Rios

25/10/2019 11h05


Nas sempre foi taxado como o rapper que escolhe as piores batidas – e que desde It Was Written ele anda perdido, escolhendo sempre pelo menos meia dúzia de beats meia boca. Eu nunca levei isso tão a sério, porque eu não acho que ele escolha beats ruins – eu acho que ele escolhe sim, beats chatos. Fracos, genéricos, em sua maioria. Mas ele sempre salva com o rap. Então isso compromete menos a qualidade da música dele.

Barra por barra pode-se argumentar que Nas é um melhor rimador que Jay-Z. Mas Jay-Z sabia como usar sua voz melhor e principalmente escolher os melhores beats. O que Jay-Z comprometeu em flow – e ele fez isso depois que o Reasonable Doubt não deu certo -, ele mais do que compensou com hits inesquecíveis que tinham beats legendário como… base.

Kanye West é um rapper bom – só. Ele não está em nenhuma lista de Top 5 MCs, já notou? Mas foi erguido ao status de superstar porque sua música era rica em beats. Seus primeiros álbuns, a trinca do ursinho, é simplesmente beat certeiro atrás de beat certeiro. Tudo é material para single. Com um flow decente e uma mensagem original, Kanye fez discos clássicos sem ser exatamente o MC mais lírico do mundo.

 

Ultimamente a coroa de mau escolhedor de beat foi passada para Eminem. Havia alguns beats ruins em Recovery. Alguns ruins em MMLP2. Mas Revival foi simplesmente um pack de beats intragáveis. Música pop feita para estádios da forma mais pasteurizada possível. Eminem acredita que seu super talento na lírica compensa o fato dele escolher beats pop – que na cabeça dele cumprem o papel comercial que lhe é exigido. Então a parte que ele deixa para ser fora da caixa é no rap. Mas tem uma hora que não funciona. Os beats do Nas são chatos. Os do Eminem são impossíveis. Não existe lírica, metáfora, punchs, multissilábica, rimas internas ou o que for que ele sempre traz brilhantemente que salve a experiência de ouvir a música dele. O que é algo que não faz sentido porque um disco que sai com o selo de execução produtiva do Dr Dre não pode ter bases ruins. Senão o artista samba – e não do jeito certo.

Por isso gosto de como chamamos beat de "base". É sempre isso: a fundação para um rap daora. Quando o DJ soltar, as pessoas têm que pirar antes de você cuspir rimas. Um bom rapper tem boas bases. Saber escolhê-las é parte do processo de ser um bom compositor.

Sobre o autor

Ronald Rios é roteirista, comediante e documentarista. Apresentou o "Badalhoca MTV" de 2008 a 2011 na MTV Brasil. Na Band fazia o quadro "Documento da Semana" dentro do programa CQC, num formato de pequenos docs sobre pautas atuais na sociedade brasileira. Escreveu para o Yahoo, UOL, VICE, Estadão, Playboy, Red Bull e Billboard. Em 2016 fez a série de documentários "Histórias do Rap Nacional" para a TV Gazeta. Ronald também apresentou de 2010 a 2012 o programa "Oráculo" na Jovem Pan FM e foi roteirista do Multishow de 2009 a 2011, pela produtos 2 MLQS, onde rodou o programa de TV Brazilians, eleito um dos 5 melhores pilotos de TV nacionais de 2011 pelo Festival de Pitching de TV da operadora Oi. Em 2017 e 2018 rodou pequenos docs, podcasts e campanhas multimídia para o artista Emicida na gravadora Laboratório Fantasma.

Sobre o blog

Rap Cru é o blog do roteirista e documentarista Ronald Rios sobre Hip Hop. Brasileiro, americano, britânico, latino… o que tiver beats e rimas, DJs, grafiteiros e b-boys e b-girls, tem nossa presença lá.

Rap Cru