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Não há espaço pra homofobia de 50 Cent em 2019

Ronald Rios

2011-07-20T19:13:39

11/07/2019 13h39

Eu não sou ávido consumidor de rappers em redes sociais. Eu ouço música. Rappers podem ser bem entediantes de seguir – assim como qualquer celebridade.

Mas é evidente que eu estou atento a tudo que o 50 Cent faz pois por mais irrelevante que ele seja musicalmente há quase uma década – a última música dele de sucesso foi uma collab com o Ne-Yo, aquela "Baby by Me".

Isso não é para dizer que ele não é um dos maiores de todos os tempos – você gostando ou não do rapper de NY. Sua mixtape foi uma revolução no game. Seus dois primeiros CDs venderam números ridículos. Depois disso veio um declínio criativo e de popularidade comuns nesse jogo. De qualquer forma seu legado no Hip Hop é intocável e para sempre ele estará na Santa Ceia do Rap.

Ao passo que 50 foi perdendo força na música, ele foi se transformando num homem de negócios. Com sua produtora, levantou a série "Power", um dos maiores sucessos da TV a cabo americana. Vendeu outros projetos também – que não deram muito certo, mas TV é complicada, várias produtoras passam anos vendendo projetos que cancelam após uma temporada, é do jogo. O que importa é que 50Cent conseguiu fazer algo importante e envelhecer com dignidade – ele poderia estar lançando os singles mais forçados possíveis para acompanhar os modismos do rap mas preferiu se ocupar de outra forma. Ele é embaixador duma marca de conhaque. Licencia e tem uma parcela de lucros em alguns produtos. Eu digo isso para falar que 50 Cent não precisa mais viver uma persona de rapper inconsequente. Pelo contrário.

Eu acho ridículo essa coisa dele cobrar, via Instagram, dinheiro de outros artistas que lhe devem. Essas notícias sempre pipocam nos sites de rap e é exaustivo. É como acompanhar a rotina de um agiota – ou de alguém do setor de cobranças de um banco, o que fora quebrar suas costas com um taco de beisebol, não tem muita diferença.

Seu novo devedor é o antigo amigo Young Buck, ex-membro do G-Unit, grupo do 50Cent. O rap é assim: melhores amigos viram inimigos; inimigos viram irmãos. Eu já vi isso acontecer dezenas de vezes na gringa e aqui no Brasil.
Supostamente Young Buck teria tido um relacionamento com uma mulher trans. E sim, através de uma série de postagens, 50 tenta atacar Buck de alguma forma por conta disso. Como se ter um relacionamento com uma pessoa trans fizesse de Buck alguém menor ou tivesse qualquer coisa a ver com sua dívida financeira junto ao 50. 50 convidou Buck a sair do armário várias vezes, algo tosco, infantil e completamente inadequado.

Até que Lil Nas X, o cara com um dos maiores hits de todos os tempos, já falado a exaustão aqui nessa coluna, revelou ser gay alguns dias atrás.

E o que 50 Cent faz? Publica uma foto de Young Buck com Lil Nas anunciando que os dois lançaram um single juntos no 4 de julho americano, dia da independência por lá, uma clara mentira apenas para insinuar mais uma vez que Young Buck é gay.
50 Cent tem 43 anos. Não é um garoto impulsivo. Ou melhor, não deveria ser. Alguns dizem que você amadurece até o momento que começa a fazer sucesso. Se isso for verdade, 50 está preso em 2003, achando o máximo trazer quem quiser pro seu "roast", sem considerar nenhuma consequência de seus atos – nem ao menos atual posição que ele tenta projetar, de business man.

Não há espaço para homofobia de 50 Cent no Hip Hop. Sim, eu apoio a liberdade de expressão nas artes e muito do conteúdo lírico do rap ao lado de décadas envolve xingamentos homofóbicos, sejam num contexto literal com intenção de ofender "por ser gay" ou jogadas a esmo, menos direcionadas à comunidade gay e mais focadas apenas o fator "batalha vale tudo" – algo pra gente discutir outro dia. Mas isso vem diminuindo ano após ano, de qualquer forma. Agora, especialmente sem contexto artístico nenhum, apenas com a intenção de machucar alguém nas redes socias por sua orientação sexual, é deprimente que um cara com a imagem tão intrinsicamente ligada ao Hip Hop esteja tão a vontade em promover o ódio aos gays em 2019.

50 Cent, eu sei que o dólar está quase 4 conto mas você não está agregando um real na cultura dessa forma.
E tenho dito.

Ronald Rios saindo fora.

Com seu cavalo.

No melhor estilo LNX.

Sobre o autor

Ronald Rios é roteirista, comediante e documentarista. Apresentou o "Badalhoca MTV" de 2008 a 2011 na MTV Brasil. Na Band fazia o quadro "Documento da Semana" dentro do programa CQC, num formato de pequenos docs sobre pautas atuais na sociedade brasileira. Escreveu para o Yahoo, UOL, VICE, Estadão, Playboy, Red Bull e Billboard. Em 2016 fez a série de documentários "Histórias do Rap Nacional" para a TV Gazeta. Ronald também apresentou de 2010 a 2012 o programa "Oráculo" na Jovem Pan FM e foi roteirista do Multishow de 2009 a 2011, pela produtos 2 MLQS, onde rodou o programa de TV Brazilians, eleito um dos 5 melhores pilotos de TV nacionais de 2011 pelo Festival de Pitching de TV da operadora Oi. Em 2017 e 2018 rodou pequenos docs, podcasts e campanhas multimídia para o artista Emicida na gravadora Laboratório Fantasma.

Sobre o blog

Rap Cru é o blog do roteirista e documentarista Ronald Rios sobre Hip Hop. Brasileiro, americano, britânico, latino… o que tiver beats e rimas, DJs, grafiteiros e b-boys e b-girls, tem nossa presença lá.